Caros leitores,
Que honra é escrever o editorial do Mês da Mulher para uma associação energética com uma liderança tão forte e inspiradora de mulheres! Este momento é uma oportunidade valiosa para destacar a contribuição das mulheres na transição energética e no combate às mudanças climáticas, celebrando os avanços conquistados e reconhecendo os desafios que ainda precisamos enfrentar para garantir uma inclusão plena e efectiva.
As mulheres desempenham um papel central nas famílias e comunidades. São muitas vezes as principais cuidadoras, responsáveis pela gestão da alimentação, do abastecimento de água e do acesso à energia nos lares. Além disso, constituem a maioria da força de trabalho na agricultura, um sector altamente vulnerável às mudanças climáticas. Essa forte dependência dos recursos naturais faz com que as mulheres sejam impactadas de forma desproporcional pelos efeitos das alterações climáticas. No entanto, a sua participação nos processos de decisão ainda é limitada, e barreiras como o acesso restrito à educação, ao financiamento e à propriedade da terra dificultam ainda mais a sua capacidade de resposta.
O reconhecimento dessas desigualdades é essencial para o desenvolvimento de políticas eficazes e inclusivas. Quando os governos adoptam legislações sensíveis às questões de género, avançamos na criação de soluções sustentáveis e equitativas. A promoção de pesquisas e a colecta de dados desagregados por género são passos fundamentais para orientar a formulação de estratégias de adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
Em Moçambique, avanços importantes foram feitos. Em 2010, o governo aprovou uma estratégia para promover a igualdade de género, buscando ampliar a participação feminina na gestão dos recursos naturais e na adaptação climática. Mais recentemente, o Plano Nacional de Adaptação (NAP), desenvolvido em 2022, estabeleceu prioridades como o fortalecimento dos sistemas de aviso prévio, a promoção da resiliência na agricultura e a gestão sustentável dos recursos hídricos, colocando as mulheres, os jovens e os mais vulneráveis no centro das estratégias de intervenção.
Apesar desses avanços, ainda há desafios a serem superados para garantir que as mulheres tenham voz activa no delineamento e implementação dessas políticas. Para que a transição energética seja realmente justa e eficiente, é essencial que as mulheres não sejam apenas beneficiárias, mas também protagonistas desse processo. Isso significa aumentar a sua presença em órgãos reguladores, associações do sector, conselhos empresariais e na liderança de iniciativas de energia renovável. A educação e a capacitação são ferramentas essenciais para essa mudança. Precisamos investir em programas que incentivem as meninas a ingressarem em carreiras nas ciências, tecnologia, engenharia e matemática, preparando-as para se tornarem as futuras especialistas e decisoras neste sector.
Por outro lado, o acesso das mulheres ao financiamento deve ser ampliado. Microcréditos e linhas de financiamento específicas podem permitir que mais mulheres empreendam em soluções de energia renovável, seja para uso doméstico ou para desenvolvimento de pequenos negócios. Além disso, é fundamental que as tecnologias energéticas desenvolvidas sejam sensíveis às necessidades culturais e sociais das comunidades em que serão implementadas.
Nos próximos meses, Moçambique estará a desenvolver documentos-chave para sustentar o compromisso com os objectivos do Acordo de Paris. A Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) e a Estratégia de Desenvolvimento de Baixas Emissões a Longo Prazo oferecerão oportunidades de contribuição dos vários intervenientes. É fundamental que esses processos considerem as necessidades e perspectivas das mulheres, garantindo que a transição para uma economia de baixo carbono seja verdadeiramente inclusiva e justa.
Desafiamos o governo e o sector privado a desenhar políticas alinhadas à realidade moçambicana, promovendo oportunidades reais para que as mulheres participem activamente da transição energética. Isso inclui a criação de incentivos para a formação e inclusão de mulheres em sectores técnicos da energia, o fortalecimento de redes de apoio e o envolvimento activo das mulheres na formulação dos regulamentos que definirão o futuro do sector.
A transição energética não será completa sem a participação activa das mulheres. Vamos garantir que, em cada etapa deste processo, a igualdade de género seja promovida não apenas como um ideal, mas como uma prioridade estratégica para um futuro sustentável e inclusivo.
Que este Mês da Mulher nos inspire a continuar a luta por uma transição energética justa e verdadeiramente inclusiva.
Autora: Khovete Phanguene - Membro Fundadora da AMER e Assessora Climática Sénior da NDC Partnerships em Moçambique